Há o que fazer para diminuir o risco de recidiva de um câncer?

 

Continuamos o nosso bate-papo sobre como diminuir o risco de recidiva e desta vez incluímos um convidado muito especial na roda da conversa: Murilo Guerra.

Murilo Guerra possui licenciatura Plena em Educação Física pela UFRJ, MBA em Gestão de Pessoas pela FGV e é o Diretor Executivo da Academia Aeróbica – Petrópolis, RJ, um empreendimento de destaque e sucesso há mais de 32 anos. Devido a sua bagagem e experiência no assunto, ele é constantemente convidado a palestrar por todo território nacional e seu discurso faz muito sucesso com o público. Difícil de colocar isso em palavras, mas se vocês conversassem por apenas 5 minutos, perceberiam que facilmente daria para ficar horas escutando o que ele tem a dizer. Realmente, ele tem o dom da oratória como poucos.

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Murilo Guerra possui licenciatura Plena em Educação Física pela UFRJ, MBA em Gestão de Pessoas pela FGV e é o Diretor Executivo da Academia Aeróbica – Petrópolis, RJ, um empreendimento de destaque e sucesso há mais de 32 anos. (FOTO: acervo pessoal)

De cara chegamos com uma pergunta um tanto quanto polêmica para Murilo. Sua resposta? Confira você mesmo.

VIVER EU QUERO  – Em sua perspectiva profissional, seria interessante a ideia de que médicos prescrevessem formalmente o exercício físico aos pacientes oncológicos que estivessem em condições de praticá-lo?

MURILO GUERRA – “A palavra PRESCRIÇÃO possui vários sinônimos para três sentidos, dentre os quais: de INDICAÇÃO, de RECEITA MÉDICA e de CADUCIDADE do prazo de um direito.

No sentido de INDICAÇÃO, o médico não só pode como deve prescrever exercícios físicos, não somente para pacientes oncológicos, como para qualquer pessoa. Pode até mesmo sugerir, por exemplo, caminhada, musculação ou alongamento.

Já se o médico prescreve no sentido de RECEITA MÉDICA e se põe a detalhar o tipo de exercício, o volume e a intensidade do mesmo e como deve ser executado, não é ético nem saudável. Isto porque, embora na medicina existam as disciplinas anatomia e fisiologia humanas, faltam outras que dariam suporte à uma prescrição de exercícios eficaz e segura, tais como: Metodologia do Treinamento Físico, Aprendizagem e Desenvolvimento Motor, Biomecânica, Atividades Motoras Aplicadas a Populações Especiais, Fisiologia Aplicada à Atividade Motora, Corporeidade e Motricidade Humana etc. Afinal, nada disto se aprende em medicina e tudo isto é fundamental na prescrição de exercícios! Portanto, neste sentido, o médico não tem preparação nem habilitação para prescrever exercícios físicos. Nem de fato, nem de direito!

Já no sentido de CADUCIDADE do prazo de um direito, o direito do médico de prescrever exercícios físicos no sentido de RECEITA MÉDICA, isto é, de forma detalhada e programada, termina quando começa o do profissional de educação física que é o especialista habilitado e capacitado para fazê-lo. De fato e de direito!

Apenas para ilustrar e facilitar o entendimento, também nós, profissionais de educação física, não só podemos como devemos INDICAR um médico para as pessoas que pretendem iniciar um programa de exercícios. Porém, não nos compete tampouco nos habilita, prescrever medicações ou exames. O fato de termos cursado, por exemplo, a disciplina Medicina Física e Reabilitação não nos torna médicos ou fisioterapeutas. Também não saímos da faculdade com o título de nutricionista – nem com conhecimento suficiente – só por termos feito a disciplina Nutrição. Tais disciplinas serviram para nos dar apenas noções básicas sobre a matéria e, com isto, prescrever, apenas no sentido de INDICAÇÃO, os médicos, fisioterapeutas e nutricionistas e, assim, trabalharmos todos juntos, de forma integrada e ética. É a chamada INTERDISCIPLINARIDADE, em que, em prol da saúde e do bem-estar das pessoas, profissionais das mais distintas áreas se unem, se indicam e o que é mais importante, se inter-relacionam com respeito e humildade suficientes para reconhecerem os limites das suas competências e áreas de atuações. Deixam, portanto, a vaidade de lado e se propõe a dividir o mérito do sucesso do tratamento ou do programa que foi elaborado para quem, de fato e de direito, deve ser beneficiado: o cliente; o verdadeiro protagonista da história!”


Retomando nossa conversa com o Mestre Estevão Scudese, veja só o que mais aprendemos sobre o assunto.

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Estevão Scudese é mestre, doutorando em Biociências e personal trainer ( FOTO: VIVER EU QUERO).

VIVER EU QUERO (VEQ) – Há estatísticas capazes de demonstrar o benefício da atividade física para o paciente oncológico?

MESTRE ESTEVÃO SCUDESE (ES) – Em uma revisão de estudos epidemiológicos acerca da atividade física como prevenção do câncer, os resultados foram claros apontando que homens e mulheres fisicamente ativos apresentavam risco reduzido para o desenvolvimento de câncer quando comparados a indivíduos sedentários. Outros estudos clássicos consideram que uma rotina de atividade física, como parte integrante do trabalho ou como atividade de lazer está associada com redução na incidência de tipos específicos de câncer, principalmente nos de cólon e de mama.

(VEQ) – Há uma cultura de que, uma vez diagnosticado com câncer, o paciente precisa procurar poupar suas energias, no entanto, pelo que estamos vendo, é justamente o contrário. É claro que todo paciente precisa conversar com o médico que o acompanha, pedindo liberação para a atividade física e avaliando eventuais limitações no seu caso concreto, mas, em linhas gerais, quais cuidados o paciente que se encontra num estado de inatividade precisa ter ao optar por iniciar uma atividade física?

(ES) – Você tocou em um ponto chave, não serão todos os pacientes que estarão indicados ou até mesmo em condições para dar início a um programa de exercícios regulares. Esta limitação pode ser transitória de acordo com o estágio da doença, fase do tratamento entre outros fatores condicionantes. Podemos citar como exemplo o papel fundamental dos medicamentos Citostáticos para o tratamento do câncer, porém é necessário que o paciente compreenda que alguns efeitos colaterais relacionados a sua toxicidade podem comprometer consideravelmente a realização de exercícios. Estes efeitos podem ser de apresentação imediata, precoce, retardada ou tardia, trazendo desde náuseas até a fadiga oncológica. Todo este quadro deve ser interpretado e conduzido pelo médico tendo em mente de que o exercício físico irá promover um somatório de estresses fisiológicos agudos que irão proporcionar benefícios crônicos. Porém, o tipo de exercício, intensidade e frequência semanal devem estar muito bem alinhados para que não haja um retrocesso no tratamento. Em alguns casos, o exercício poderá ter que esperar.

(VEQ) – Uma coisa que nos chama muito a atenção é que, por mais que a pessoa saiba dos benefícios da prática regular de atividades físicas, sempre há uma justificativa para não se exercitar: falta de tempo, falta de dinheiro, falta de vontade etc. Ao que tudo indica, por trás dessas justificativas existe um ponto comum: a preguiça. Afastando os preconceitos com o termo, podemos entendê-la como um instinto ancestral de preservação da energia? Como lutar contra este instinto? Como você costuma orientar seus alunos a este respeito?

(ES) – De fato o nosso estilo de vida moderno conspira constantemente contra nossa fisiologia e “programação” ancestral. É inegável que as conquistas na produção de alimentos, industrialização e avanços tecnológicos nos trouxeram grandes facilidades que nos permitiram expandir como espécie. Enquanto nos organizamos cada vez mais com conforto e previsibilidade, é necessário ressaltar que todos estes benefícios vieram com um preço alto que já está sendo cobrado. Em outras palavras, enquanto que nossos ancestrais sofriam com a fome e a desnutrição e lutavam arduamente para obter alimento, hoje as pessoas não sabem lidar com o excesso de oferta de alimentos e tão baixa exigência física. Esta mudança no estilo de vida, condições de trabalho e nutrição tem importante reflexo no perfil epidemiológico populacional. Este processo de reorganização global determinou grande modificação nos padrões de saúde-doença ao redor do mundo. Esta transição epidemiológica, caracterizou-se pela mudança no perfil de mortalidade, com a diminuição da taxa de doenças infecciosas e aumento, concomitante, da taxa de doenças crônico-degenerativas, especialmente as doenças cardiovasculares e o câncer. Este quadro é tão complexo que integra também questões como urbanização e falta de espaços para práticas de atividade física ao ar livre, condição socioeconômica que não permite um acompanhamento profissional e até violência, desestimulando a prática da atividade em um ambiente urbano. Procuro sempre trazer este debate à tona para os meus alunos tanto nas universidades quanto na academia.”

(VEQ) – Gostaria de deixar uma mensagem final para nossos leitores?

(ES) – “Quero lembrar aos leitores de que o exercício físico já é considerado como parte fundamental no tratamento e prevenção não somente do câncer, mas para diversas outras doenças, especialmente aquelas crônico-degenerativas como abordado brevemente nesta entrevista. O termo “Exercise is Medicine” ou “Exercício é Remédio” foi cunhado e vem sendo utilizado pelos principais órgãos normativos médicos internacionais como o Colégio Americano de Medicina do Esporte. Porém, para que o paciente possa desfrutar de todos estes benefícios, é fundamental que haja indicação e acompanhamento médico para tal, bem como a orientação de um profissional de educação física que esteja alinhado com as necessidades, preferências e disponibilidade semanal do paciente. Para fechar esta tríade de sucesso, é fundamental estar engajado e comprometido com bons hábitos alimentares, sendo fundamental a orientação de um nutricionista.”

5 comentários em “Há o que fazer para diminuir o risco de recidiva de um câncer?

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  1. Te conheci no encontro com dra m Julia e dra Sabrina.
    Conversamos um pouco, pois sou de Petro.
    O meu foi de mama, nivel 1 e fui liberada pra exercício em 1 mês. Me faz muito bem.
    Dia 2/1/2018, fez 1 ano que operei e já pego ferro pesado.
    Faço 30 minutos de step, muito alongamento, um pouco de pilares de solo e quase todos os aparelhos.
    Às dá preguiça e não vou.
    No inicio ia 4 a 5 vezes por semana. Agora vou 3 vezes.
    A minha medica dra Julia, liberou legal. Estive nela tem 2 meses e ela elogiou até a cicatrização interna.
    ATENÇÃO: o meu não teve complicações e sou abusada.
    Conversem com seus médicos e não tenham medo.
    Ah…….tenho 68 anos e peso 59kilos.
    E não como besteiras, refri, gorduras, etc. Mas é gosto meu. Já não comia antes.
    BOA SORTE, FELIZ 2018, MUITA DISPOSIÇÃO E FÉ PRA TODAS NÓS.
    Obrigada e beijos.
    Lucia

    Curtido por 1 pessoa

    1. Lucia, que depoimento bacana. Amei! Está certíssima, primeiro precisamos conversar com nossos médicos para avaliarmos a condição física em geral. Mas estando liberado, exercício físico faz um bem incrível! Beijo no coração, lindona!😘

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  2. Dayane, passei para parabenizar você e a equipe Viver eu Quero pelas campanhas e pelo trabalho de conscientização, ambos em nível de excelência, que têm feito por meio das redes sociais, TV e em campo. Também para agradecer a oportunidade da entrevista e por todo esse carinho e consideração. Um forte abraço, Murilo

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