LEMBRAM DO EXAME FEITO POR ANGELINA JOLIE, QUE A LEVOU A UMA MASTECTOMIA (REMOÇÃO DAS MAMAS)?

 

Faz um tempo que comento aqui no Viver Eu Quero e nas redes sociais que em breve farei aconselhamento genético. Sempre que falo isso as pessoas ficam curiosas e para melhor exemplificar a situação, começo explicando pelo caso da atriz Angelina Jolie.

Angelina Jolie divulga 'Invencível' em Londres nesta terça (25) (Foto: REUTERS/Paul Hackett)
Angelina Jolie durante divulgação de filme em Londres ( Foto REUTERS/Paul Hackett)

Vocês devem lembrar que, há poucos anos atrás, a atriz fez uma cirurgia de retirada das mamas em função de um exame que teria feito, que apontava para uma alta probabilidade de desenvolver câncer de mama e de ovário.

Na época, a atriz foi bastante criticada por uns e super elogiada por outros. Sim, o assunto dividiu opiniões. Muitos diziam se tratar de uma “mutilação desnecessária” e que ela estava paranoica.

Bom, história não é beeeeem assim.

Para início de conversa, parte da mídia vendeu a história como se ela estivesse mutilada. Na verdade alguns omitiram que ela fez uma reconstrução imediata: ela tem duas lindas próteses. Tantas mulheres fazem isso só por estética, não? Ela fez por uma questão de saúde e prevenção, pensando inclusive em seus filhos.

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Angelina Jolie com sua família (Foto reprodução – Annie Leibovitz)

 Há bastante fundamento científico no que a atriz fez e ela encorajou mulheres no mundo inteiro a adotar uma atitude semelhante. Vamos entender melhor o caso.

Angelina fez um mapeamento genético para detectar se ela era portadora de mutação nos genes BRCA1 e BRCA2. Essas mutações, dentre outras, juntas são responsáveis por, aproximadamente 10% dos casos de câncer de mama, ou seja, aquela ideia de hereditariedade de genes capazes de levar a um câncer só acontece em 10% dos casos. O câncer é uma doença multifatorial, não se esqueçam.

Entretanto, quando há indicativos de que alguém pertence a uma família com potencial para essa anomalia genética, esta pessoa pertence a um grupo de risco para a doença e, neste caso, há indicação de aconselhamento genético.

A atriz já havia perdido alguns parentes com a doença, dentre eles a sua mãe, falecida em 2007. Por esta razão, ela achou melhor fazer um sequenciamento genético, que por fim detectou, que Angelina realmente era portadora da alteração do BRCA1, o que, segundo especialistas, aumenta a probabilidade de câncer de mama em até 87% e do câncer de ovário em até 50%

Saiba mais sobre o exame genético que Angelina Jol
Angelina Jolie com a mãe, Marcheline Bertrand, falecida em 2007, aos 56 anos, vítima de um câncer de mama. (FOTO:REUTERS/FRED PROUSER

Já ouvi, em relação aos números envolvendo o câncer de ovário, que “50%, nem é algo tão significativo assim.”

Acho que esta afirmação pode ser reavaliada a partir de uma informação muito relevante, que a população, de uma maneira geral, não conhece (e eu me incluo, pois antes de entrar neste mundo oncológico, não sabia desse dado): segundo os profissionais da área da saúde, o câncer de ovário é muito difícil de se diagnosticar.

Meu oncologista, o Dr. Celso Rotstein, em uma de nossas conversas o qualificou como “doença traiçoeira” e eu concordo plenamente.

Normalmente, esta doença só apresenta sintomas quando já se encontra num estágio avançado. 50% a mais de chances de desenvolver uma doença com maior probabilidade de ser descoberta já em estado avançado, me parece um risco mais alto do que a simples leitura de que  “50% nem é algo tão significativo assim”.

Agora, é claro, que inúmeros outros fatores podem pesar na balança, como falaremos mais adiante.

Os nucletídeos são representados nessa ilustração como cada uma das
Segundo especialistas, alteração do BRCA1 aumenta a probabilidade de câncer de mama em até 87% e de câncer de ovário em  até 50% (FOTO: Pasieka/ APA/ SPL / AFP Photo)

E para quem já teve um câncer de mama?

Em tese, se você pertence aos 10% dos casos de cânceres causados por mutação genética hereditária, as chances de um novo câncer são bem grandes. Concordam?

Então, como avaliar se está enquadrada, ou não, neste grupo de risco?

Segundo o Oncoguia, há indicação de se fazer o aconselhamento genético quando se enquadrar em pelo menos UM dos seguintes critérios:

  • Câncer de mama diagnosticado antes dos 50 anos.
  • Mais de um câncer de mama diagnosticado.
  • Câncer de mama bilateral.
  • Câncer de mama triplo-negativo (RE- / RP- / Her2-).
  • Etnia judaica Ashkenazi.
  • Familiares com câncer de mama, ovário, pâncreas, próstata ou melanoma.”

Agora vocês devem estar pensando: Day, então você terá de fazer aconselhamento genético porque teve câncer de mama aos 32 anos? 

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Na verdade, estou eleita para fazer o exame porque:

A) tive câncer de mama aos 32 anos;

B) O câncer de mama era triplo negativo e

C) Minha linda avó materna, infelizmente, faleceu aos 52 anos com câncer de ovário em estado avançado e, segundo familiares, ainda era portadora de um câncer de mama primário (não era metástase, mas um outro câncer inicial).

Então, na verdade, eu atendo 3 critérios, quando somente um já seria suficiente para me encaminhar ao oncogeneticista.

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Minha saudosa Vovó Dalva.

Day, mas você tem alguma prima ou irmã com o mesmo problema?

Todos os descendentes da minha avó materna, da minha geração, além de mim, são homens: só tenho primos e irmãos homens.

E sua mãe? Sua tia?

Bom, graças a Deus, elas não foram acometidas por tal doença e segundo algumas pesquisas é possível este comportamento (da anomalia genética pular uma geração).

Então é certo que eu tenho a tal mutação?

Não. Para saber  se tenho mesmo, preciso fazer o aconselhamento genético, contudo meu oncologista acredita que eu seja uma forte candidata pelos motivos que já descrevi acima.

Agora, a pergunta que não quer calar: e se eu realmente tiver a alteração, o que fazer?

Nestes casos a recomendação é fazer 2 cirurgias preventivas: uma mastectomia bilateral (retirada dos 2 seios) e uma cirurgia chamada ooforectomia (a retirada dos ovários). Quem leu UM ANO DE TRATAMENTO -COMO FOI?O Mastologista – Dr. Rodrigo Souto e/ou Da Descoberta Do Nódulo À Cirurgia, sabe que eu fiz uma quadrantectomia (a retirada de um quadrante da mama), além de esvaziamento parcial dos linfonodos.

Na hipótese de retirada preventiva das mamas e dos ovários, as cirurgias são feitas em momentos distintos e é possível fazer a retirada da mama com reconstrução imediata, como no caso de Angelina Jolie.

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Day Sant´Anna, autora do Blog Viver Eu Quero (FOTO: Os Máximos)

No início do tratamento, quando li a respeito destas cirurgias preventivas, fiquei um pouco assustada. Com o tempo, comecei a enxergar com outros olhos:

A) Já tenho um filho e não pretendo ter outro, até porque o primeiro já foi uma gestação de risco e, segundo minha ginecologista/obstetra, qualquer gravidez minha seria de risco (um dia conto essa história para vocês aqui no blog). Optei por não me arriscar mais.

B) Já amamentei então os seios já cumpriram seu “função biológica” e, com a questão da reconstrução imediata, o aspecto psicológico (que é muito importante, não subestimem) estaria resolvido também e

C) Entre ficar viva com próteses e sem ovários e correr o risco de achar outro tumor para manter meus seios e ovários, fico com a primeira opção.

Agora, reconheço que já ter um filho pesa muito na minha decisão. Se não tivesse, o sonho da maternidade pesaria no lado oposto da balança. Esta é, inclusive, uma discussão bastante atual. O número de mulheres em estágio fértil acometidas por algum tipo de câncer tem aumentado, logo nossa conversa tende a ficar mais complexa quando envolve o sonho da maternidade. Mas isso é papo para outro post.

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Vamos falar mais sobre assunto por aqui, mas gostaria de terminar o post de hoje com uma reflexão:

“Se uma mulher atende um dos critérios para fazer o mapeamento, o recomendável é que ela realmente faça o aconselhamento genético?”

Vou dar minha opinião/conselho pessoal de paciente (lembrando que não sou formada na área de saúde): depende!

Se seu tratamento não puder ser alterado em função deste exame, na minha perspectiva, só vale a pena fazer aconselhamento genético se você realmente estiver comprometida com a possibilidade de fazer as cirurgias preventivas. Logo  acho perigoso deixar para decidir o que fazer somente após o resultado do mapeamento genético. Explico:

Imaginem descobrir cientificamente que possui um alto risco de desenvolver outro câncer, mas decidir não fazer nada a respeito (não importa a razão, podem ser várias, como querer ter filhos ou não estar disposta a abrir mão dos próprios seios).

A informação do exame só servirá para lhe atormentar e não lhe trará benefício algum. Então, decidir fazer aconselhamento genético, na minha humilde opinião deve ser uma decisão pautada no comprometimento com uma nova luta, desta vez preventiva, pela vida.

Cada uma precisa realizar as próprias reflexões.

Agora, só para descontrair, preciso dividir uma piadinha pessoal:

Com tanta coisa boa na genética da gataaa da Angelina Jolie, tinha que ser isso em comum? Poxaaaaa!!

1420208748_angelina-jolie-zoomAngelina Joliejolie

Não resisto a uma piada. Rs.

haha

Alguma de vocês já fez aconselhamento genético ou tem vontade de fazer? Divida sua opinião conosco.

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