TRIPLO NEGATIVO -UM BATE-PAPO COM O DR. GILBERTO AMORIM

Já comentamos neste post, que o Viver Eu Quero esteve presente no IV Congresso Internacional Oncologia D´Or. Na ocasião, tivemos oportunidade de entrevistar o Dr. Gilberto Amorim e nossa conversa foi tão produtiva que o material gerou um vídeo no Youtube, o presente post e provavelmente gerará mais um.

O Dr. Gilberto Amorim é Coordenador do Grupo de Oncologia Mamária da Oncologia D’Or,
Ex-Chefe da Oncologia Clínica do HCIII – INCA, editor do Manual de Condutas de Câncer de Mama da SBOC, titular da American Society of Clinical Oncology e membro voluntário do Comitê Científico do Instituto Oncoguia.

Como vocês sabem, esta blogueira que vos escreve também encara por aqui um câncer de mama triplo negativo.

Quando diagnosticada fui pesquisar o que pude e, de cara, notei um certo grau dificuldade de dimensionar o assunto “triplo negativo” na internet. Alguns falavam do tema de forma mais didática, porém relativamente superficial e outros aprofundavam a questão, mas a abordagem era tão técnica, que a completa compreensão do texto só seria possível para quem já dominasse diversos outros tópicos específicos da área da saúde.

É claro que aproveitei a entrevista com o Dr. Gilberto para esclarecer este tema para inúmeras leitoras que estão neste barco do triplo negativo.

Aproveitem, pois o Dr. Gilberto deu uma aula sobre a questão e numa linguagem bastante acessível.

Vamos lá!

BLOG VIVER EU QUERO – “O senhor pode falar um pouco sobre o câncer de mama triplo negativo e sobre os possíveis avanços da ciência no tratamento deste grupo em específico?”

DR. GIBERTO AMORIM – “O triplo negativo é um desses tipos de câncer de mama que se reconhece como ‘diferente’, porque não falamos do câncer de mama como uma única doença.

Normalmente, quando estamos diante dessa patologia, este tumor já passou por um teste dos hormônios, o estrogênio foi negativo, a progesterona também, e igualmente se pesquisou a proteína HER2, que, neste caso, também não foi encontrada.

Chamamos isso, genericamente, de triplo negativo, porque são três variáveis biológicas que foram testadas e estão ausentes.

Importante explicar que até mesmo esse grupo de triplo negativo não trata de um único tipo de doença. Existem alguns tipos de triplo negativos que são muito distintos de outros. Existem variantes de câncer de mama que não expressam hormônios e nem HER2, que não são necessariamente agressivos e que possuem algumas diferenciações mais específicas. Por outro lado, aquele caso clássico de triplo negativo pode, de fato, ter um comportamento mais agressivo. Isso já é reconhecido. É uma realidade.

A partir do momento que não se pode fazer os anti-hormônios, nem o tratamento específico do HER2, sobram três armas importantes do tratamento oncológico: a cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia.

Novamente, faço um alerta: não são todos os pacientes que têm que fazer todos os tratamentos. Quero dizer que os triplos negativos têm, de uma forma geral, três armas importantes à disposição.

Num futuro próximo, talvez nessa nova era da oncologia, em relação à imunoterapia, dos subtipos oncológicos do câncer de mama, talvez o triplo negativo seja o mais propenso a ter ganhos expressivos.

Estamos aprendendo nestes últimos anos que existem várias células (lifócitos Ts e outras), que se infiltram na região do tumor, mesmo quando diante de uma doença já avançada, já na fase em metástase. Estas células doentes têm um íntimo contato com os outros tecidos que estão em volta. Talvez este seja o que chamamos de tipo de tumor mais imunogênico.

Desta forma, é necessário desenvolver novos tratamentos, visando turbinar o sistema imunológico, para que ele próprio ajude no combate dessas células doentes. Vai continuar tendo radioterapia, cirurgia e quimioterapia, aliás, até o efeito da químio pode ser turbinado quando você infiltra células do sistema imunológico, células que são combativas dessas células tumorais e alguns remédios podem turbinar o sistema imunológico.

Hoje isso ainda é experimental. Em câncer de mama, alguns desses estudos estão entrando na fase 2, que já é uma fase de estudos em humanos, mas ainda fases um pouco preliminares.

Não existe nenhum imunoterápico aprovado para triplo negativo, em nenhum lugar do mundo, então não é um problema exclusivamente brasileiro de não ter acesso a droga. Não é isso.

Há drogas entrando em fase 3, que é aquela fase em que, se os resultados forem bons, como foram os resultados preliminares da fase 2, talvez em 1 ou 2 anos, se tenha alguma droga aprovada, aí quase sempre primeiro nos EUA ou em algum país na Europa. Depois, é claro, logo que possível, no Brasil também.

É como se finalmente surgisse um novo veio a ser explorado. Um tumor é positivo para hormônio, o outro para HER2 e o triplo negativo? Ele é positivo para que? Qual é a variável biológica que ele tem diferente? Pode ser que se consiga identificar que uma variável biológica é o sistema imunológico. Pode ser que esses pacientes expressem uma proteína, aqui falo hipoteticamente, “X”, “Y” ou “Z” e aí desenvolveríamos um remédio anti – “X”, “Y” ou “Z” e consequentemente nós conseguiríamos turbinar os resultados já existentes.”

BLOG VIVER EU QUERO – “As pesquisas, de fato, já conseguiram identificar alguns marcadores biológicos, certo?”

DR. GIBERTO AMORIM – “Sim, mas isso ainda é um trabalho em desenvolvimento que precisa continuar, para que possamos validar esses marcadores. Precisamos perguntar: será que esses marcadores são realmente importantes num número expressivos dessas pacientes? Sim, porque as pacientes com câncer triplo negativo representam, em geral, 10 a 15% dos casos de câncer de mama e nem todas têm esse comportamento mais agressivo que cheguei a citar antes. Mas, é claro, que você tem que identificar esse biomarcador, ter certeza de que ele é verdadeiro e relevante e depois avaliar se poderá atuar nele de alguma maneira. A testagem também precisa ser desenvolvida. É necessário desenvolver um teste que seja confiável e identificar com isso alguma forma de tratar.

No triplo negativo, recentemente, há pesquisadores descobrindo que até o androgênio, que é como se fosse um pré-hormônio masculino, de alguma forma poderia estar envolvido nesses casos de câncer. Só para explicar, as mulheres produzem um pouquinho desse hormônio masculino, assim como os homens produzem um pouquinho de hormônio feminino. Como a gente já sabe, algumas dessas células do câncer de mama são sensíveis aos hormônios femininos, mas talvez tenha lá um receptor (que é uma espécie de “fechadura”) nessa célula tumoral triplo negativo, sensível ao androgênio. Então se você der um “anti-androgênio”, será que você consegue controlar um desses casos? Isso já está, neste exato momento, em fase de testes em humanos.

Como o anti-androgênio a gente já usa em câncer de próstata, teoricamente, essas drogas sairiam na frente. Será que esse paciente que é triplo negativo, porém androgênio positivo, poderia se beneficiar de algum desses tratamentos? Novamente repito, é experimental, mas é um caminho promissor também.”

BLOG VIVER EU QUERO – “Então, resumindo numa linguagem bem simples, podemos entender que o triplo negativo é na verdade um bloco de doenças não identificadas com biomarcadores e que portanto, são várias doenças distintas?”

DR. GIBERTO AMORIM – “Sim. Algumas têm características em comum. Dentro do triplo negativo você terá um grupo que talvez expresse androgênio e aí você tratará com drogas mais direcionadas para isso. Talvez um outro grupo dessas pacientes triplo negativo tenha uma característica imunológica especial, na qual você possa atuar de forma mais específica.

É um problema de classificação de patologia, como se fosse uma doença que a gente ainda não entendeu direito. Eu não classifico desse jeito, nem daquele, então “sobrou o resto”. Este resto, na verdade, é um monte de coisas.”

BLOG VIVER EU QUERO – “É por isso que, como dito na palestra, há uma previsão de nova classificação e/ou subclassificação desses tumores?”

DR. GIBERTO AMORIM – “Sim. Sabemos que isso está em desenvolvimento, mas essas coisas não são tão rápidas quanto a gente gostaria. É claro que os pacientes estão doentes neste momento, as vezes precisando de uma decisão terapêutica aguda. Nesses casos poderemos contar com os vários tipos quimioterapia, radioterapia e cirurgia, como falei. Esses outros tipos de tratamento nós ainda teremos que aguardar.”

E aí? Gostaram? Foi esclarecedor?

Aguardamos seu comentário. Sempre teremos mais a trocar por aqui.

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10 comentários em “TRIPLO NEGATIVO -UM BATE-PAPO COM O DR. GILBERTO AMORIM

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  1. Fiquei muito feliz nas informações que ouvi no seu canal YouTube, estou em processo pra começar quimio e rádio, claro que assusta em saber de várias pessoas que sentam ao seu lado em consultório na espera. Mesmo já tendo passado por cirurgia de mastectomia que com muitas orações ñ senti vergonha do meu corpo por ter perdido a mama, a minha busca e de tantas como eu é a cura por isso procuro está firme na minha fé em Jesus Cristo pra passar por mas esse processo que até aqui me ajudou o senhor. Não sinto nada nenhuma dor mal estar, mas preciso tratar pq o meu laudo cirúrgico ñ é nada animador RS, foram encontrados 16 linfonodos comprometidos com metástase isso assusta sim, mas ñ posso perder a esperança, amanhã tenho primeira consulta ao ancologista e já fiz tomogragia e tenho outros exames marcados ñ tenho plano de saúde, e sabemos que processo público é mas lento, mas Deus tem dado um empurrãozinho que estou bem assistida no HFSE, aqui no Rio de janeiro e através dos seus vídeos tirei vários temores da quimio pq afinal nós mulheres somos guerreiras e filha do criador . Amém? Um grande abraço e vamos a luta . Me chamo Aguida tenho 54 anos.

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