Descobrindo Minha Careca

Esse é um dos primeiros questionamentos que passam pela cabeça do paciente com câncer: vou ficar careca?

Não adianta, homem ou mulher, jovem ou idoso, vaidoso ou não. O cabelo é uma característica que nos acompanha desde sempre, mesmo para aqueles que têm pouco cabelo, logo tem muito valor pessoal, cultural e emocional. Então, as célebres frases “é só cabelo” e “ah, depois cresce”  não consolam o paciente que além de enfrentar uma doença difícil ainda tem que encarar uma profunda transformação de sua imagem.

No início sofri com a ideia de perder os cabelos, sim. Definitivamente, não era a maior das minhas preocupações. É claro que o que mais me preocupava (e ainda preocupa) era viver o bastante para criar meu filho e curtir ao máximo a vida. Entretanto, uma grande preocupação não extingue as outras mesmo que pequenas.

Mas querem saber? O processo da perda dos cabelos não foi nada do drama que eu imaginava ser e no fim das contas posso dizer que foi um lindo processo de autoconhecimento e mais que isso, foi libertador.

Não sei se vocês sabem, mas nem todo tratamento para câncer leva à queda dos cabelos. Se você ainda não conversou com seu médico sobre o assunto e essa preocupação passa por sua cabeça, é um bom momento para fazê-lo. Talvez esse assunto não faça parte do seu tratamento específico.

Caso seu cabelo venha mesmo cair, minha dica é: faça o que você quiser para se sentir o mais confortável neste processo. Cada um encontra seu caminho. Tenho amigos que preferiram deixar os cabelos ralos (pode acontecer de não cair totalmente), conheço quem foi lá raspou tudo no dia seguinte e pronto. Eu encontrei um meio termo. Procure avaliar o caminho mais acolhedor para você.

Vou dividir com vocês a minha experiência e espero que ela possa ajudá-los de alguma forma.

Então, a bendita ideia das madeixas caindo me preocupava e eu decidi fazer uma transição para diminuir um pouco o impacto, para mim e para os que me cercavam. Como mãe também me perguntava quanto à reação do meu filho de apenas 2 anos. Será que ele teria dificuldades em me reconhecer? Como esposa, ficava imaginando o quanto isso afetaria meu marido. Como mulher, tinha medo de me sentir medonha.

 Não tinha o que poderíamos chamar de uma vaaaaaasta cabeleira, mas sempre tive os cabelos abaixo da altura dos ombros. Sempre gostei deles longos. Sempre! Sofria com os dedinhos a mais que o cabeleireiro insistia em tirar. Então o primeiro passo, foi significativo para mim: fazer um corte chanel.

Essa foi a primeira grande descoberta. Inventei uma nova Day, com ares mais modernos. Sentia-me com um ar fashion e adorei o resultado!!! Fiquei me perguntando porque nunca havia feito isto antes. Fui super elogiada pelos amigos e muitos me incentivam a usar este corte no futuro.

O próximo passo foi pesquisar bastante, conversar com médicos, pacientes e enfermeiras para ter uma noção de quando as madeixas realmente começariam a cair. Em resumo, no meu caso, isso ocorreria  por volta de duas semanas após a primeira sessão da quimioterapia apelidada de vermelha.

 Com bastante antecedência conversei com amigos meus, donos de um salão, que cuidam de mim há quase 20 anos (20 anos!!!! Abafa o caso!), a Célia e o Igor (queridos, como amo vocês!), e eles me ajudaram muuuuuiiiiitooooo neste processo, desde o primeiro corte até à careca.

Não queria viver aquela cena de andar pela casa com tufos de cabelo caindo por todos os lados, então optei por raspar assim que começassem a cair. Ligaria para Célia e Igor e iria ao salão num horário noturno, quando normalmente estava vazio, pois tinha medo de rolar uma cena “Camila – Laços de família” com direito à plateia.

Passados os 15 dias da primeira químio vermelha, batata: os cabelos começaram a cair e rápido. Em menos de 2 dias tinha cabelo no travesseiro, na roupa, no rosto do filho que era sempre muito agarrado e beijado… Então disse “vamos logo acabar com isso que já está me dando nojinho!”

Como combinado fui ao salão a noite, estávamos Igor, Célia, meu marido e eu. Falamos um monte de palhaçadas, rimos à beça e decidimos fazer tudo aos pouquinhos, para ver como eu me sentia no caminho.

Mais processo de autoconhecimento. Primeiro cortei Joãozinho e descobri que sou a caaaaara do meu irmão Léo. Claro que uma versão muito mais bonita e estilosa. Rs. Também me senti linda assim. Achava que nunca ficaria bem de cabelo curto e achei o máximo. Mais uma Day!

Aí rolou um medinho de raspar. Será que vou ter um choque e fazer um cena Laços de Família, chorando copiosamente? Lembrei dos tufos caindo pela casa e disse “Querem saber: é agora ou nunca. Passa a máquina.” Primeiro passamos a de nº 2 e depois a nº 1.

Outra descoberta: minha cabeça era linda!!!! Redondinha e tinha até pintinhas desconhecidas. Amei, amei, amei!!!!!!! Continuava mulher, continuava bonita e meu sorriso e olhar se destacavam como nunca antes. Despi-me não apenas dos cabelos, mas também de pré-conceitos. Achava que só ficaria bonita de determinado jeito  e neste processo vi várias facetas de mim mesma e foi incrível, pois gostei de todas elas.

No final das contas, o drama estava todo na minha cabeça, porque a realidade foi divertidíssima e encantadora. Isso quer dizer que vou ficar careca para sempre? Não. Isso quer dizer que me sinto bonita e feliz de vária maneiras e  que nunca havia me permitido olhar para mim mesma desta forma antes. Agora  fico imaginando qual faceta usarei quando os cabelos voltarem. São tantas opções interessantes.

E a reação das outras pessoas? Isso merece um post inteiro de tão interessante que é, mas há uma reação muito especial que quero relatar agora mesmo: a do meu pequeno.

Estava frio então, saí do salão e fui buscá-lo na casa de meus pais de lenço na cabeça. Quando tirei o lenço ele, que aaaamaaaa chapéu, abriu um sorrisão e perguntou: quer chapéu, mamãe? Sorriu, me beijou, como se eu estivesse exibindo brincos novos. Nada havia mudado. Criança é um barato!

Fiz uma curta montagem em vídeo de todo este processo para vocês. Espero que curtam.

Bora viver!

 

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